domingo, 6 de setembro de 2020


 Vamos juntos?

Ouvi certa vez de alguém  um pouco  mais velha do que eu, na época  tinha 34 anos, duas palavras que não sei porque ( mas vou aprofundar) estão sendo presentes na minha mente hoje já vivendo na década dos 60:

Mansidão e Paciência.

Fico recordando do como ouvia  e compreendia essas duas palavras naquela época lá atrás:

Sentia um gosto de acomodação,desculpa para a pessoa não se colocar, e até um sentimento de perda diante do outro que dava "razões"para  que eu não sentisse vontade  de  ser mansa, nem desenvolver a tão falada paciência.

Mas, respeitava aquela senhora que para mim, no momento, me trazia paz e vontade de ouvi-la mais e mais. Ela me passava um QUÊ de um sentimento, querido, calmo,todavia,não presente na minha pessoa.

Lembro agora o seu sorriso acolhedor que tão sabiamente me repassava a vivência de uma serenidade e de uma Fé realizante que embalavam as suas doces palavras. Ela se comportava de forma firme, muitas vezes ousada nas suas atitudes, mas trazia um perfume que me envolvia me encantavam: sua mansidão e paciência.

Hoje avalio que para nos motivarmos a viver de forma mais paciente e serena é preciso que  primeiro entendamos o significado dessas vivências nas nossas vidas,na minha e  na do outro.

Entendo que essas atitudes são escolhas conscientes,exercitadas da gente com a gente mesmo e, requerem reflexão,caminhos  nos quais as  brigas e as  pazes se completam em  muitos ciclos centenas de vezes.

Penso,hoje, nas pessoas que me despertam  e despertaram para vivências de mansidão e paciência.

 Olho para pessoas próximas,as que se encontram longe dos olhos,  as da minha infância, os amigos do coração,os colegas de trabalho...Agradeço a cada um  por terem me despertado para  ondas de serenidade e, motivação para ir além do momento presente da pressa,  do piloto automático, da  raiva, da reação,da falta de fé... Foram múltiplas as situações  nas quais fiquei na vontade.

Hoje,aos poucos  vou  querendo caminhar na busca de adocicar e serenar o meu passo,sem tanta ansiedade e pressa para que a mansidão e a paciência queiram ser morada em mim.

Hoje sinto que não está tão difícil essa caminhada!

 E aí,vamos juntos?

                Lígia Oliveira- Terapeuta de família/casal e individual na abordagem psicanalítica.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Subindo Montanhas




Nas mãos o livro de Paulo Coelho, Ser Como Um Rio Que Passa, pensamentos e reflexões.
Tenho uma mania ao ler um livro ( meu,claro) em colocar na última folha o título: Pérolas. Nesse espaço registro as partes com as respectivas páginas que me fizeram parar e fazer novas reflexões.
Assim sendo, observei que, dentre as páginas marcadas, estava lá a  de número 30, onde um título sugestivo olhava para mim: Manual de Subir Montanhas.
Voltei as páginas e comecei a refletir sobre os significados, para mim, daquele texto tão motivante.
Paulo Coelho vai trazendo, um a um, de forma metafórica, o caminho que precisamos ou queremos percorrer para subir as nossas montanhas.
Ouso, selecionar algumas orientações e compartilhar com voces:
- Muitas vezes, a montanha vista de longe é bela, repleta de desafios. Quando nos aproximamos podemos ver densas florestas, riachos, rios caudalosos... "Tente todos os caminhos, as trilhas, até que um dia você estará em frente ao topo que pretende atingir".
- Aprenda com as pessoas que já fizeram essa caminhada. Elas deixam marcas, pegadas que poderão facilitar os seus passos
- A paisagem poderá sofrer transformações. Assim sendo, de vez em quando, é sábio parar e observar o contexto, suas ações...
- Respeite seus limites. Caminhe sem exigir o que seu corpo e sua alma não podem dar.
- Tenha respeito a sua alma. Use a longa caminhada como uma estratégia para administrar as crises.
- Fique atento: "Uma obsessão não ajuda em nada a busca do seu objetivo e termina por tirar o prazer da escalada. Tão pouco fique repetindo que é mais fácil que  imaginava, porque isso o fará perder sua força interior".
- Você poderá precisar dar mais passos, os quais não estavam previstos, antes de chegar ao topo.Sua disposição positiva fará você enfrentar mais esses degraus.
- Quando chegar ao cume celebre, grite, sorria, chore, pule, pois o que era plano e sonho agora é realidade.
"Conte a sua história. Dê seu exemplo. Diga a todos que é possível e outras pessoas sentirão coragem para enfrentar suas próprias montanhas".
Importante refletirmos passo a passo,  nosso olhar flexível, a necessidade de mudança de rota, das imprevisibilidades, como ainda, de em alguns caminhos, mantermos a direção... Essencial ficarmos abertos aos imprevistos e as nossas reservas de força, fé e esperança, para sabermos compreender  o momento adequado para seguir, parar, reestruturar e redimensionar nossos sonhos e caminhos.

                           Lígia Oliveira- Terapeuta de Casal,Família e Psicanalista

Funções do Pai- Um Pouca da Teoria Psicanalítica



Atualmente, a psicanálise tem evidenciado mais o significado das funções/ papéis paternos.
Em relação a esses papéis devem ser observados os seguintes comportamentos do pai, segundo Zirmermam psicanalista, estudioso e autor de vários livros sobre Psicanálise:

- A atenção do pai à segurança  que ele desenvolve junto à mãe, ou não, nas atividades muitas vezes cansativas, da educação dos filhos e a forma como estimula o crescimento afetivo, emocional, cognitivo, social do filho.

- É importante que o pai entenda como foi vivenciado o vínculo relacional com seu genitor, e, se o pai repete ou não a sua experiência junto ao seu filho. Necessário também se faz que o pai compreenda qual a imagem interior que ele faz da sua esposa, imagem essa que terá grande influência na representação que o filho fará da mãe, como ainda levará o filho a entender qual o lugar que o pai tem em relação ao desejo da mãe, e qual a imagem que a esposa tem do marido.

- O pai precisa desenvolver o papel de "terceiro" entre o filho e a mãe, normatizando e delimitando o espaço da "díade-mãe e filho".

- Ao pai também é dada a função da colocação dos limites, exercitando junto à criança  a indispensável, mas dolorosa, passagem  do Princípio do Prazer ao Principio da Realidade, propiciando à criança a experiência das frustrações adequadas, e a estimulação da função do ego infantil voltado ao desenvolvimento da capacidade de pensar.

É muito importante que os pais entendam  que a maneira como seus pais resolveram seus conflitos edípicos vai, significativamente, influenciar no relacionamento com os seus filhos.

Quando a ligação mais forte do filho com a mãe é ultrapassada, mediante auxílio do comportamento cooperativo e firme do pai, o conflito edípico vai sendo, adequadamente, resolvido, e à medida que a criança vai se sentindo mais segura em sua identidade, desenvolve condições de ir renunciando à  mãe, como o seu interesse exclusivo.Assim sendo,  a criança começar a transitar através de comportamentos mais socializados, colocando, agora, nesse seu mundo as figuras do pai, irmãos, familiares, colegas...

Pais, excessivamente, ausentes emocional ou fisicamente, diminuídos pelas falas da mãe, muito sedutores, ou tirânicos, reforçarão comportamentos que dificultarão a saudável passagem da simbiose do filho com a mãe, e com essa atitude  cria entraves à  resolução do Complexo de Édipo.

De maneira geral a função paterna é  a de um "terceiro", figura de pai forte e respeitado, que exerça a função de impor a lei de modo a contribuir na  resolução da ligação exagerada do filho com a mãe,  auxiliando no desenvolvimento saudável da família como um todo.

Ligia Oliveira- Terapeuta de família, casal e psicanalista.

Base de leitura para o texto- Zimermam, David- Fundamentos Psicanalíticos, teoria, técnica e clínica ,Porto Alegre,Artmed,1999.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Terapia Familiar: A Criança Como Sujeito


Quando a família chega ao consultório, na maioria das vezes, relata na sua conversa informações sobre as suas crianças. Ouvimos com respeito os comentários dos pais acerca da criança falada, atribuindo-se a essa ( pelos pais) o papel de coadjuvante na dinâmica familiar.

Compreendemos o olhar dos pais, todavia reforçamos a esses a necessidade da participação da criança no processo terapêutico, como também um participante ativo da dinâmica familiar.

Assim sendo, facilitamos encontros nos quais "as crianças possam ser vistas como informantes dos seus próprios sentimentos, comportamentos e relacionamento social"( Yanna Aires,Izane Nogueira).

A criança conquistou mais espaço, e,o seu mundo, agora, traz subsídios valiosos à compreensão da dinâmica individual e familiar, sendo essencial a postura terapêutica no sentido de buscar a ampliação do conhecimento da vivência relacional, mediante estratégicas lúdicas, do relato verbal e não verbal, para que a compreensão não se estenda, somente, através do relato dos pais.

A utilização de histórias aparece como fator de aproximação e conhecimento infantil, uma vez que ao descrever e fazer parte da história, a criança é levada a  falar sobre o comportamento dos personagens, fazendo, depois uma identificação com seus padrões comportamentais familiares, ficando mais à vontade diante de uma postura não punitiva do terapeuta.

Yana Gadelha e Izane Menezes traz no seu artigo, Estratégias Lúdicas na Relação Terapêutica com a Criança na Terapia Comportamental, a seguinte orientação:

"Pedir que a criança imagine ser um barco pequeno em uma imensa tempestade.  Orientar para ela falar sobre as ondas, o vento, a luta para vencer a tempestade, trará condições  à criança  a externalização de  sentimentos relacionados ao seu ambiente familiar, escolar, social..."

Outra atividade prazerosa para as crianças é o desenho. O terapeuta pode solicitar que a criança desenhe sua família através de símbolos, animais, o que poderá clarificar sentimentos positivos, negativos, padrões de comportamentos afetivos, cognitivos...

O trabalho com fantoches, com figuras de pessoas e animais auxiliará na construção de histórias que tragam conteúdos comportamentais significativos .
Importante, no início, a participação de toda a família, na criação das histórias, como forma de ajudar na descontração do grupo como um grande sistema..
Os familiares,  juntos, conversam sobre a história e dividem os personagens. Desta forma, o terapeuta já vai compreendendo os  múltiplos fatores e indicativos relacionais familiares.

A utilização de jogos específicos para cada faixa etária contribui para conhecer e trabalhar o comportamento infantil e familiar em relação ao seguimento de regras, sociabilidade, liderança, acomodação, aprender a lidar com perdas e ganhos...

Outros jogos facilitam ao desenvolvimento da criatividade( modelagem, argila, colagens), cognição( jogos de montar, quebra cabeça, memória),relaxamento, concentração( observar partes do corpo, ouvir os sons lá de fora...).  

As atividades lúdicas junto às crianças objetivam , antes de qualquer coisa, a formação do vínculo afetivo infantil ao processo terapêutico, facilitar o conhecimento acerca das bases que motivam e mantém o padrão comportamental individual e familiar, trabalhar os sentimentos que permeiam as relações infantis e dos adultos, favorecendo a participação da criança como sujeito dentro do ambiente familiar.

Lígia Oliveira- Terapeuta de casal, familiar e psicanalista.


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Casal: Amor Mais Concreto e Visível?






Estava eu sentada em uma lanchonete da Universidade Católica, Recife, dando um tempo para procurar a sala  onde participaria de curso sobre relacionamento de avós e netos, que seria dado  pela  nossa querida professora Cristina  Brito. Treinava para a vida pessoal e profissional: sou avó de primeira viagem, e, terapeuta de casal e família há sete anos.
Gosto de chegar cedo nos locais. Tenho uma certa inquietude com horários. Diria até mesmo, que estou trabalhando para me soltar e ficar mais leve em relação ao peso que dou à minha pontualidade. Digamos que nesse "livro" tenha conseguido ir além da página 05.
Aproveito essa minha antecipação para ler algum livro, que levo comigo, ou  ficar observando as pessoas, suas falas, seus comportamentos, silêncios... Nessa minha espera escolhi a segunda opção. Fiquei, discretamente, atenta à conversa de duas moças,  mais ou menos na faixa do vinte e poucos anos. Uma delas falava, de forma ansiosa, sobre o seu relacionamento com o namorado, e, parecia estar magoada.
Ouvi quando ela falou:"Eu quero um amor mais visível e concreto,"tocava em assuntos voltados ao parceiro onde  percebia, na figura do namorado, individualidade como egoísmo e as conversas, como estratégias de ironia e convencimento. Fiquei curiosa em saber qual a parte dela nessa história ( mania de terapeuta sistêmica). Naquele recorte de conversa, o namorado  fazia o papel de  ator principal e não era o do mocinho.
 Olhei o relógio e vi que precisava procurar a sala. Precisava ir embora. Gosto de me sentar em um local que consiga usufruir bem do que está sendo estudado.
Antes do curso começar pensei um pouco ainda sobre a conversa daquela moça. O que seria que ela queria dizer sobre um amor mais visível e concreto? Como será que ela ensaiava, também, as condições da melhoria dessa cena? Quais os cenários e diálogos possíveis? Refleti. Quem sabe tenha perdido, antes ou depois, essa parte da conversa.Tomara...

Olho, agora para mim. Fiquei pensando: quando na minha vida afetiva conjugal senti falta de dar ou receber um amor com mais  concretude?
O curso começou. Depois volto à essa cena.
Deixo agora  com voce. Como você complementaria essa história ?

Ah, Cristina, quanta competência e ao mesmo tempo leveza na forma como voce compartilhou o curso!
Muito grata, Lígia

                              Lígia Oliveira- Terapeuta de Casal e Família e psicanalista
                     

quarta-feira, 27 de março de 2019

Reconhecer Nossos Erros



Penso que um dos principais valores do movimento ao reconhecimento dos nossos erros é o exercício do aprendizado voltado à confiança em nós mesmos. Ouvi certa vez que mentir para nós  nos empobrece. Reflito que também nos paralisa.

Winnicott, em um dos seus livros falou que a diferença entre mães boas e mães ruins não eram os erros cometidos, mas o que elas faziam com eles.

E nós o que estamos fazendo com os nossos erros? Os repetimos, os acolhemos, os negamos, os justificamos, os terceirizamos, os reconhecemos?

Parar e com atenção observarmos nossos atos nocivos, procurarmos explorar seus significados, contextos e necessidades ajudará na facilitação de uma visão mais inteira do nosso ser. É preciso que a intencionalidade dessa avaliação não responda à causas culposas, vitimizadas, mas dirija-se a alimentarmos sentimentos e ações com mais liberdade e inteireza.

Avalio que essa postura não é simplesmente uma forma de se comportar baseada em referênciais morais. Vai além. Peitar a vida de cabeça erguida e coração aberto é entender que a primeira porta a ser aberta é a de dentro, o que nos trará força na alma e serenidade no coração.

Quantas vezes  nós não queremos reconhecer nossos erros. Nos sentimos apontados, vulneráveis, perdedores. Pior se  o que impede é o orgulho, sentimento que quando alimentado cria um grande muro, desnecessário, entre as pessoas, e mescla a energia relacional de distanciamento, arrogância e teimosia.

Aqueles que ficam na negação e repetição dos erros não cooperam com a descoberta de importantes chaves que poderão abrir seus quartos escuros.

Mudemos nossas escolhas. Por onde podemos começar?



                       Lígia Oliveira- Terapeuta de Casal e Família

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Relacionamento Entre Irmãos- Laboratório Para a Vida







É fato que o primeiro laboratório de vida de todos nós é a nossa família. Nela vamos aos poucos, construindo a forma de ser e estar no mundo. Nos primeiros anos, o  modelo principal de relacionamento centra-se nos pais, os quais exercem o "monopólio"das nossas identificações. Mais adiante, de acordo com nossos sentimentos, pensamentos, ciclos de vida e  construção social do saber fazemos movimentos maiores ou menores em direção ao sentimento de pertencer e de se  afastar da nossa família de origem.
Falando sobre o relacionamento  entre irmãos percebemos a  presença dinâmica de sentimentos e ações de amor, companheirismo, ajuda, colaboração, ciúme, competição, rivalidade...Comuns em qualquer vivência fraterna.



Avaliamos que essas experiências são necessárias ao exercício do aprendizado voltados às nossas  perdas e ganhos, durante nossa vida, vez que nos ensinam a  olhar,  para a gente mesmo,  para o outro, para nossos limites e recursos de forma pessoal, grupal e contextual. Percebemos ainda como significativo essas experiências, pois elas facilitam a elaboração de sentimentos como raiva, medo, ciúme, competição, ajuda, e  a seguir no caminho da aproximação e ou da diferenciação familiar.
A chegada de um irmão ensina ao primogênito a aprendizagem em saber melhor  lidar  com a diminuição da atenção dos pais, mas, ao longo do tempo, permite o exercício conjunto das trocas, cooperação e complementação recíprocas. Essa dinâmica vai possibilitar a  cada irmão a definição de maneira mais clara, das suas semelhanças, diferenças e papéis individuais e familiares.



A disputa fraterna é um campo de aprendizagem porque também prepara os irmãos para conviver com  o mundo lá fora. Essas disputas  são saudávéis quando não  provocadoras de distanciamentos, inimizades e desarmonias constantes e ou  demorados.
A ordem do nascimento dos filhos é de fundamental valor em relação aos papéis que cada irmão irá  desempenhar na sua vida individual e familiar, como explica a citação  popular seguinte: "O mais velho abre portas e o caçula as fecha." Como já mencionamos, a fratria prepara para a vida e mediante  o desenvolvimeto da convivência entre os irmãos são exercitadas as seguintes funções: afetividade, experenciar perdas e ganhos, aprendizado dos papéis cognitivos, emocionais, psicológicos, sociais, colaboração nos papéis substituvos parentais...



É fundamental observar que o relacionamento fraterno é consequencia imediata do inventário comportamental dos  pais. Reforçamos ser prioritário que os pais, em linhas gerais, procurem falar a mesma linguagem nas horas das desisões, e, não demonstrem ambivalência, não repassem as decisões para os filhos quando se sentirem inseguros, cansados ou discordantes, como também tenham claros, conversados e acordados suas atitudes de responsabilidade, firmeza, limites e amorosidade.


            Lígia oliveira- Terapeuta de casal,  família e psicanalista.